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terça-feira, 19 de maio de 2015

mãe

a verdade é que os anos passam mas há momentos em que qualquer energia me atira para ti. um retrato, uma música, um simples prato. o silêncio. e não consigo impedir que o sal volte aos olhos e que o estômago arrefeça. e parece até que sinto o frio cortante daquele dia em que te arrancaram de mim. o dia em que fiquei mais perdida. o dia em que me senti na mais profunda solidão. o dia em que nenhuma palavra me aqueceu. o dia em que deixei de te ouvir. o dia em que qualquer coisa cá dentro se apagou, se partiu. o dia em que me senti rasgar. o dia em que mais precisei de ti, o dia em que quis gritar e não consegui. o dia em que o meu corpo se dobrou. uma dor ao centro. o teu colo perdido para sempre. o teu cheiro. a tua voz. os dias que ainda tínhamos para inventar. o tecto branco do meu quarto. e só me apetecia pedir desculpa porque parecia um castigo qualquer de tão grande que era a dor. e nesse dia, tu sabes, meu amor, que morri também um bocado. nesse dia, não mais podia dizer a palavra mãe. e eu precisava tanto e quis tanto repeti-la desde aí. o dia em que fiquei sem saber o que fiz de errado. o coração em sangue. onde é que estás que me fazes tanta falta, mãe?
(2013)

sexta-feira, 20 de maio de 2011

...

A vila inteira estava a dormir. Nada perturbava a noite. Pensou em chamar a mãe. A voz saiu-lhe desconsolada, infantil, e teve de chorar outra vez. Pensou em muitas coisas e, com o tempo, sentiu-se diminuir até ser menos do que uma pedra, um grão de pó. O medo gelava-lhe as orelhas, a ponta do nariz, as mãos, os joelhos e os pés. Não conseguia sair de dentro do tempo. Fechava os olhos, mas sentia um choque de medo e voltava a abri-los muito de repente.

(JLP, Livro)

(sempre intenso)

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

70, ontem


Não escrevi. Não verti uma lágrima. Não parei. Mas o teu rosto surgia-me a todo o momento. Sem uma única ruga. E é pena. Ainda assim, sorri-te.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

às vezes Ela dizia que...


e eu quero acreditar que sim.