Gustav Klimt
quarta-feira, 25 de junho de 2008
Canção do Caminho
Por aqui vou sem programa,
sem rumo,
sem nenhum itinerário.
O destino de quem ama
é vário,
como o trajeto do fumo.
Minha canção vai comigo.
Vai doce.
Tão sereno é seu compasso
que penso em ti, meu amigo.
- Se fosse,
em vez da canção, teu braço!
Ah! mas logo ali adiante
- tão perto!-
acaba-se a terra bela.
Para este pequeno instante,
decerto,
é melhor ir só com ela.
(Isto são coisas que digo,
que invento,
para achar a vida boa...
A canção que vai comigo
é a forma de esquecimento
do sonho sonhado à toa...)
Cecília Meireles
sem rumo,
sem nenhum itinerário.
O destino de quem ama
é vário,
como o trajeto do fumo.
Minha canção vai comigo.
Vai doce.
Tão sereno é seu compasso
que penso em ti, meu amigo.
- Se fosse,
em vez da canção, teu braço!
Ah! mas logo ali adiante
- tão perto!-
acaba-se a terra bela.
Para este pequeno instante,
decerto,
é melhor ir só com ela.
(Isto são coisas que digo,
que invento,
para achar a vida boa...
A canção que vai comigo
é a forma de esquecimento
do sonho sonhado à toa...)
Cecília Meireles
Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos
Já não se encantarão os meus olhos em teus olhos,
já não se alcamará junto a ti a minha dor.
Mas para onde for levarei teu olhar
e por onde caminhes levarás a minha dor.
Fui teu, foste minha. Que mais?
Juntos fizemos uma curva na estrada onde o amor passou.
Fui teu, foste minha. Serás do que te amar,
do que em teu horto corte o que só eu semeei.
Parto. Estou triste: mas eu estou sempre triste.
Deixo os teus braços. Não sei para onde vou.
... Do teu coração me diz adeus uma criança.
E eu lhe digo adeus.
Pablo Neruda
já não se alcamará junto a ti a minha dor.
Mas para onde for levarei teu olhar
e por onde caminhes levarás a minha dor.
Fui teu, foste minha. Que mais?
Juntos fizemos uma curva na estrada onde o amor passou.
Fui teu, foste minha. Serás do que te amar,
do que em teu horto corte o que só eu semeei.
Parto. Estou triste: mas eu estou sempre triste.
Deixo os teus braços. Não sei para onde vou.
... Do teu coração me diz adeus uma criança.
E eu lhe digo adeus.
Pablo Neruda
Lua adversa
Tenho fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
Cecília Meireles
terça-feira, 24 de junho de 2008
Visita de Estudo. 24 de Junho 2008
As ruas. A calçada. As paredes caiadas e, ali adiante, virada para o Tejo, as buganvílias a explodir de cor. O Poeta da epopeia, serenamente. E depois um castelo, plácido, a manter a História acordada. Almorolan. E comigo, as vozes. Alguns sorrisos. A beleza de quem pisa este chão pela primeira vez. O encanto de quem regressa. O barco na água. O castelo a ficar para trás. As vozes. Explico. Chamo-os, sabendo que a voz me vai doer. Adiante. Um piquenique. Grupos que se formam, naturalmente, como a amizade. A partilha. (que belos croquetes!!!) Seguimos. Entramos. Os olhos a percorrer cada pormenor. A curiosidade a levar-nos para a frente. Perguntas. Risos. A descoberta. Esclareço e também pergunto. Sempre fui curiosa. Felizmente. E depois, o pé ao caminho. As pedras. A água. E uma voz que nos guia e orienta. Mais passos e o sol sobre a cabeça. Reclamações. Claro! Calor e já algum cansaço. Comigo não se safam. Toca a andar! "Sai daí!" "Não vás para aí!" "Desviem-se!" "Oiçam!" Se calhar sou mesmo chata... Continuamos. Assalta-me a dúvida: será que eles estão a aproveitar cada palavra nova? Cada descoberta? Depois de fingir que atravessámos milhares de anos em direcção ao passado, depois de voarmos para o espaço, mergulharmos nas águas e nos pendurarmos em grutas, - a partir de hoje vou respeitar bem mais os morcegos -, vamos então, desta vez de verdade, mergulhar na História. Não a dos homens, mas a da Terra, quando o homem ainda não a tinha pisado. Olho os vestígios que a pedra insistiu em deixar-me. O vento que sopra leva-me nas asas da imaginação e, - juro!-, vejo aqueles seres, de pescoço longo e respeitosa altura, a pisar a rocha num tempo em que a paisagem era certamente um nadinha diferente! Falo dos Saurópodes. O tempo escasseia. Volto à realidade. É hora de regressar. Reclamações... No comments. Explico, mais uma vez, agora sem tanta paciência... embora com o mesmo empenho. Afinal, tenho-os comigo. São eles, por mais que me doa a voz e me fuja a paciência, que me fazem sentir bem naquilo que faço.
segunda-feira, 23 de junho de 2008
Há palavras
Há palavras que nos beijam
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O'Neill
Também partilhei esse momento que me atirou lá para trás e, - mistério isto da emoção -, também me empurrava para a frente. e no meio de tantos solavancos, a música, eterna e ritmada, como se nunca tivesse partido. e nunca chegasse tão vazia. os olhos fechados. a saudade, sempre intensa, doce e, às vezes, cruel, das horas felizes que não o sabiam. o coração a explodir, mas sempre a impedir os olhos de o dizer.
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O'Neill
Também partilhei esse momento que me atirou lá para trás e, - mistério isto da emoção -, também me empurrava para a frente. e no meio de tantos solavancos, a música, eterna e ritmada, como se nunca tivesse partido. e nunca chegasse tão vazia. os olhos fechados. a saudade, sempre intensa, doce e, às vezes, cruel, das horas felizes que não o sabiam. o coração a explodir, mas sempre a impedir os olhos de o dizer.
Lisboa
não me interessa o nome
E nesta saudade que me parte toda por dentro, ainda consigo ver-vos a rir. e parece que oiço um suave timbre semelhante ao que ouvia diariamente na certeza estúpida de que nunca me faltaria. Absurda esta certeza.
e depois outra saudade. do que voltará um dia, para continuarmos a rir e eu a ver-vos crescer e a continuar o sangue que é nosso.
e depois outra saudade. do que voltará um dia, para continuarmos a rir e eu a ver-vos crescer e a continuar o sangue que é nosso.
Basta
segunda-feira, 24 de março de 2008
Espelho
E olho para ti como se mais nada existisse. Só tu importas. Atentamente observo os teus olhos e ainda que as lágrimas surjam, de vez em quando, tenho a certeza que nunca deixarão de brilhar. Sei que em ti, encontrarei a força e o abrigo, a serenidade e a revolta, o amor e o riso, porque dentro de ti tudo isto se mistura e se funde. É por isso que venho até ti, e de olhos fixos nos teus, te prometo, amar e respeitar, e viver cada momento com todo o coração e com toda a alma!
Beijo doce
Beijo doce
terça-feira, 18 de março de 2008
Basta
Agora basta. Basta de telefonemas por fazer. de esperas inúteis. basta de castelos de areia. não quero para mim construções de sonhos. Basta. Vai-te. Deixa-me aqui. A sério. Fico bem.
segunda-feira, 10 de março de 2008
Amigos
Um brinde! Um brinde à amizade. Aos rostos. Aos olhares que se cruzam a rir ou a chorar. À vida partilhada. Às ironias e à seriedade. Um brinde para ti.
Tu
E surges, assim, sem mais nem menos. Ergues-te. Sem pedir licença. E sem que eu te recuse, porque não o quero. Vejo os teus ombros. E voo, de olhos presos nos teus. São momentos, horas, dias. Cenários diferentes. Mas sempre tu. Quase.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
Riso
E rir... rir muito. sem parar. sem limites. num prazer indefinido e inebriante. um riso quente, ensolarado. enorme. na areia, no campo. que importa. rir. bem alto.
domingo, 8 de julho de 2007
Liberdade

LIBERDADE
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada.
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por Dom Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca....
(Fernando Pessoa, Obra Poética)
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada.
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por Dom Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca....
(Fernando Pessoa, Obra Poética)
Poema à Mãe

POEMA À MÃE
No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.
Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.
Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me?
-Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;
Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;
Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...
Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.
(Eugénio de Andrade, Os Amantes sem Dinheiro)
No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.
Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.
Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me?
-Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;
Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;
Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...
Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.
(Eugénio de Andrade, Os Amantes sem Dinheiro)
Sonho

O SONHO
Pelo sonho é que vamos,
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não frutos,
Pelo Sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria, ao que é do dia-a-dia.
Chegamos? Não chegamos?
-Partimos. Vamos. Somos.
(Sebastião da Gama, Pelo Sonho é que Vamos)
Pelo sonho é que vamos,
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não frutos,
Pelo Sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria, ao que é do dia-a-dia.
Chegamos? Não chegamos?
-Partimos. Vamos. Somos.
(Sebastião da Gama, Pelo Sonho é que Vamos)
Morte
"A morte é como o umbigo: o quanto nela existe é a sua cicatriz, a lembrança de uma anterior existência. [...] Cruzo o rio, é já quase noite. Vejo esse poente como o desbotar do último sol. [...] A cicatriz tão longe de uma ferida tão dentro: a ausente permanência de quem morreu. [...] morto amado nunca mais pára de morrer. [...]
A vontade é de chorar. Mas não tenho idade nem ombro onde escoar tristezas. Entro-me na cabina do barco e sozinho-me num canto. [...] Minha alma balouça... (Mia Couto, Um Rio chamado Tempo, uma Casa chamada Terra)
A vontade é de chorar. Mas não tenho idade nem ombro onde escoar tristezas. Entro-me na cabina do barco e sozinho-me num canto. [...] Minha alma balouça... (Mia Couto, Um Rio chamado Tempo, uma Casa chamada Terra)
um blog
Pensava há já algum tempo em criar este blog. Não foram falta de tempo nem de vontade as razãos que levaram a que só agora ele começasse a assumir forma. Talvez este seja o momento.
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